quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Deus te abençoe

Acordou mais cedo. Como todas as outras vezes, pôde escutar o barulho do silêncio dentro da casa ao passar pelo corredor semi-iluminado. Porém, sentia como se não estivesse sozinha. Algo estranho tomava conta de seu corpo recém acordado, e sonolento, mas preferiu encarar aquela madrugada como outra qualquer. Caminhou em direção à copa e sentou-se na poltrona acolchoada para iniciar seus estudos.
Digamos que o desespero ainda não havia apontado, mas a prova do mesmo dia com certeza a tirava o equilíbrio, a ponto de faze-la não pensar em outra coisa pelo resto do dia. Enquanto todos dormiam, era ela que estava ali, quebrando a cabeça para entender de física (a matéria da faculdade considerada a mais difícil).
Sabia que poderia estar ali no mesmo lugar, mergulhada em algum livro de João Guimarães, principalmente aquele em que se faz presente a trama psicológica conflitante do sertanejo narrador. É fato que a releitura, naquele dia, seria bem mais interessante que exercitar o v(aoquadrado)= v(zero)(aoquadrado) mais 2a(delta)(s). Mas não poderia se dar ao luxo naquele momento. Questão de escolha.
O despertador tocou às 5h30 da manhã, acompanhado pelas pisadelas da mãe pelo corredor até a cozinha para, como de costume, preparar o café do marido que se vestia apressado para mais um dia de trabalho.
Pelo caminho, a garota notava os sorrisos simpáticos da mãe que passava lentamente pela copa e não parava - Bom dia, minha filha! - dizia baixinho. Sabia que o fato principal para não chegar mais perto era o de não lhe tirar a preciosa atenção. No máximo, era o café forte com bolachas que lhe era oferecido para que se mantivesse acordada.
Continuou com os exercícios. 9h37. Cansou. Olhos pesados de sono. Mas tinha que continuar. Sabia que não poderia parar.

Deitou sobre os cadernos e imaginou-se na casa dos avós maternos. Por um instante pensou que sonhava acordada, mas o pensamento logo logo foi desviado para outro plano, involuntariamente.
Entrou na casa dos avós que cheirava a almoço recém preparado. Passou pela sala da frente sem alarde, e finalmente a cozinha. Parou na porta e avistou seu avô encostado na pia finalizando algumas panelas sujas e ao mesmo tempo adoçando um suco avermelhado logo ao lado. No canto, para sua surpresa, deparou-se com a avó sentada na mesma cadeira de rodas antiga e acinzentada, aos prantos. A garota se aproximou e agachou próximo à avó que a olhou fundo nos olhos como se pedisse socorro sem saber como dizer. Chamou o avô, mas não obteve nenhuma reação. Era como se estivessem em lugares diferentes estando no mesmo lugar. Naquele contexto, compreendeu que eram somente ela e sua avó.
A senhora de cabelos grisalhos era a mesma que a de 7 anos atrás: alva, bonita, simples, que apesar do choro, ainda conseguia exibir o mesmo sorriso singelo em um dos cantos da boca. Sorrir era o que ela fazia de melhor.
‘O que acontece, vó? A senhora não sabe como me entristece olhar seus olhos marejados com estas lágrimas. Me diz o que posso fazer para ajudar?’ E a avó não respondia, não falava sequer uma palavra. Só observava, só olhava um olhar distante.
Então, a garota levantou-se erguendo os braços para a velha senhora. E a abraçou fortemente passando a mão direita sobre os seus cabelos lisos. ‘Como sinto a sua falta vó. Como sinto..’

‘Minha filha. Minh.. Você acabou pegando no sono. Pensei se te deixava descansar um pouco mais ou se te acordava para estudar para sua prova. Optei pela segunda opção.
Ah! Sem problemas, mãe. Preciso mesmo terminar alguns exercícios e ir muito bem nesta prova de hoje. Foi bom você ter me acordado. Obrigada mesmo. Vou ao banheiro jogar um pouco d’água no meu rosto.'
Naquele momento, em frente ao espelho, a garota pôde sentir alguém deslizando a mão em seus cabelos cacheados. E tudo de repente fez sentido. Aquela que chorava por um instante de sonho era ela traduzida pela imagem da avó que pedia por socorro, talvez por desamparo, talvez por cansaço, às vezes por medo. ‘Minha avó está aqui. Sinto. Minha avó está aqui para me consolar’. Abaixou a cabeça, fechou os olhos e sussurrou aquilo que sempre dizia quando a via: ‘A tua benção, vó’. E só conseguiu ouvir a voz dela, como há 7 anos, com a mesma doçura, e com o mesmo tom apaziguador: ‘Deus te abençoe, minha filha!’

domingo, 26 de outubro de 2008

Sobre rodas

Carrega consigo um sonho de criança
Mas o medo sempre a impediu de realizá-lo
Num dia desses, tomou coragem e calçou um par em seus pés
Foi pra frente, foi pra trás
Deslizou desajeitadamente
Caiu de quatro
Esfolou os joelhos
Riu ao final
Sonho realizado

ps: como doeu!

sábado, 25 de outubro de 2008

Casinha pequenina

Clara e João Roberto se conheceram há poucos dias e não demorou muito para que se tornassem amigos. Além da admiração e do carinho que existia, o que mais se sobressaia era a cumplicidade que se fazia presente. Era como se ambos já se conhecessem há muito tempo. Era como se não tivessem nada a esconder um do outro. Uma amizade bonita.
Num dia desses, passando pela praça em um destes encontros casuais, resolveram parar para um sorvete. Clara escolheu o de flocos com uma densa camada de calda de morangos, que por sinal era o seu preferido. João Roberto pegou o de creme com calda de caramelo, bastante castanha e dois canudos de chocolate. Sentaram num banquinho ali por perto e começaram a conversar.
Subitamente notaram um barulhinho que vinha de longe, como se fossem risadas ou então, uma música bem animada. Não tardou a curiosidade tomar conta para João Roberto acabar puxando Clara pelo braço.
Enfiaram-se numa trilha de árvores frondosas que dava diretamente ao zoológico municipal. Tinham certeza de que o barulho vinha dali. Porém, perceberam um caminho tão diferente daquele que conheciam: tudo em um tom de verde mais intenso, mais iluminado, mais bonito. Avançaram. O som se mostrava cada vez mais próximo quando Clara se deu conta de que borboletas, em perfeita sincronia, pareciam querer mostrar o caminho de onde vinha aquela melodia curiosa. Seguiram-nas.
Chegaram numa casinha com um quê de rusticidade, flores na varanda e uma plaquinha ao lado da porta da frente. Ambos pararam e de cócoras leram o que estava escrito logo abaixo: ‘Sejam bem vindos! Podem entrar.’
Os dois se olharam entre felizes e espantados. Meu Deus! Que lugar é esse? Obedeceram a plaquinha e giraram a maçaneta da porta.
Ao abri-la, depararam-se com algo surpreendente: crianças de todos os tamanhos corriam de um lado a outro da casa em meio a peraltices, gozando da liberdade que tinham. As risadas eram estridentes. Só havia espaço para a felicidade naquele lugar.
Rapidamente, algumas vieram na direção de João Roberto e puxaram-no para umas brincadeiras. Outras convidaram Clara pra um chá de mentirinha.
A garota, em dúvida, olhava para o parceiro sem entender a situação. Ele retribuía o olhar entre sorrisos e semblantes engraçados, como quem diz: ‘Clarinha, aproveita isso tudo aí que lhe é oferecido. Será que, pelo menos, daria para você deixar um pouco de lado os seus porquês e saborear o seu chá, por favor?’ Era só o que ela queria. E foi isso o que fez.
De todas aquelas crianças que brincavam no salão, uma, em especial, chamou mais a atenção dos dois amigos. Era uma pequena que aparentava ter uns 5 ou 6 anos de idade, mulatinha espivitada com algumas trancinhas envoltas a lacinhos de fita coloridos na cabeça. A impressão era de que havia perdido os dois dentes de leite da frente há algumas semanas, pois, ambos começavam a apontar em sua gengiva infantil. Seu sorriso era o mais perfeito e o mais encantador de todos.
Aquela ali não deixava João Roberto de lado por nada. Durante o pega-pega, era só dele que ela corria atrás. No futebol, só passava a bola para ele. No corre cotia, o lencinho branco sempre caía no chão atrás do preferido. E assim fazia em todas as outras brincadeiras: peteca, passa anel, outros piques.
No momento em que as crianças se reuniram para a ciranda, a pequena veio ao encontro de João Roberto para dar-lhe um abraço. Ele a pegou no colo e a rodou por um instante no ar, feito passarinho. Ao coloca-la de volta ao chão, meio tonta, João Roberto ofereceu uma bala à criança que sem muito pensar, aceitou. A grande roda já estava quase formada. A pequena envolveu o braço de João Roberto de um lado e de Clara do outro. Sentia um carinho especial por Clara também. Eram notáveis seus sorrisos a ela.
Cantaram, brincaram, rodaram.
Escutou-se, logo após a ciranda, o som de sinos repicando do lado de fora da casa. Clara olhou para seu relógio e se assustou ao ver que os ponteiros não se mexiam. Cutucou-o por um tempo sem sucesso e praguejou algumas palavras contra o aparelho. As crianças começaram a deixar o cômodo. Subiram as escadas a fim de se recolherem depois de uma tarde inebriante, porém, cansativa. Era hora de ir embora. A porta da casa se abriu instantaneamente e quando, após a despedida, Clara e João Roberto foram em direção à porta acabaram sendo surpreendidos pela mulatinha. A garota abraçou João Roberto e lhe deu um beijo gostoso do lado esquerdo do rosto depositando em seu bolso algo que ele preferiu descobrir depois. Ao lado, Clara esperava ansiosa por um beijo da garota. Infelizmente ele não veio. A pequena puxou Clara para um abraço e ao se aproximar de seu ouvido suspirou sem segredos: ‘Cuida dele pra mim?’ João Roberto sorriu em silêncio. Clara se afastou um pouco e fez que sim com a cabeça. Já a garota saiu correndo em disparada e sumiu ao subir pelas escadas.
Ao saírem, perceberam a porta bater logo atrás deles. João Roberto não se conteve de curiosidade e, no mesmo instante, enfiou a mão no bolso e tirou o que havia sido deixado pela pequena. Ao abrir sua mão direita, deparou-se com o papel de bala recém inaugurado, meio amassado, e ainda melado. Desdobrou-o. Nele seguia com letras miúdas e muito coloridas o recado da pequena: ‘Cuida dela pra mim também?’

ps: Eles contam por aí que ainda escutam umas risadas distantes sempre que passam pela praça, mas a casinha, essa sim nunca mais apareceu.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Era mesmo o fim

Eu havia chegado e olhava-o de longe. A cada passo dado por mim era um aperto a mais que sentia dentro do peito. Eu queria não acreditar na razão para esse encontro à tarde em plena segunda-feira naquele mesmo lugar de sempre, mas foi irrelevante. Pela ligação do dia anterior eu já sabia o que iria sair da boca dele. E o pior de tudo era saber ainda mais que ele não iria mudar de opinião.
Me aproximei, sentei ao seu lado e com os olhos marejados com os restos de lágrimas da noite anterior encareio-o e esperei-o dizer tudo aquilo que queria. Notava-o meio sem jeito, sem graça, e me apresentava um olhar triste. Aquele mesmo olhar que eu tentava e, por muitas vezes, conseguia reverter quando algo o perturbava ou o desanimava. Mas naquele dia eu fraquejei.
-Olha, eu realmente não sei como te dizer isso, mas... –gaguejando e abaixando a cabeça.
-Mas... –neste momento uma lágrima minha foi derramada. –Me diz de uma vez o que você tem para me dizer que não pôde revelar ontem pelo telefone. –duas, três lágrimas, até que me desesperei. E pensava comigo: por favor, não diga o que eu penso que vai dizer, diz pra mim que pensou melhor e viu que estava completamente equivocado. Diz que ainda me ama como disse na semana anterior. Me dá logo um abraço e um daqueles beijos que só você sabe me dar e suspira baixinho ao meu ouvido que eu sou a mulher da sua vida.
-Eu realmente andei pensando e... Acabou! Eu não te amo mais.
Fez-se um instante em silêncio. Era estranho o fato de eu não ter tido vontade de falar qualquer coisa, não me expressar. Naquele momento eu não conseguia pensar em absolutamente nada. Estava vazia. Estava oca por dentro.
-Mas me promete que vai ficar bem? Refleti muito sobre nós dois e cheguei à conclusão de que...
-Ok! Acho que o que você queria dizer já foi dito. Agora, o que eu quero mesmo é ir embora.

ps: Ah! Esses momentos que surgem de repente na cabeça da gente em dias menos convenientes a lembranças angustiantes.

sábado, 4 de outubro de 2008

Trilha Sonora


1- Notas de abertura:
Sintaxe à Vontade (O Teatro Mágico)

2- Quando veio ao mundo:
No Recreio (Nando Reis)

3- Primeiros passos:
Cria (Maria Rita)

4- Infância:
Oito Anos (Adriana Calcanhotto)

5- Primeiro dia na escola:
O Caderno (Chico Buarque)

6- Aquele amor platônico:
Por Você (Barão Vermelho)

7- Churrascos em família:
Samba do Arnesto (Demônios da Garoa)

8- Adolescência:
Tchubaruba (Mallu Magalhães)

9- Primeiro beijo:
Amor I Love You (Marisa Monte)

10- Ao se apaixonar:
Espatódea (Nando Reis)

11- Erros e arrependimentos:
Failure (Kings of Convenience)

12- Desilusões amorosas:
50 Receitas (Leoni)

13- Personalidade:
A Ana (Ana Cañas)

14- Amizade:
Canção da América (Milton Nascimento)

15- Vida:
Menina da Lua (Maria Rita)

16- Em pensamentos:
Infinito Particular (Marisa Monte)

17- Depressão:
Stronger Than Me (Amy Winehouse)

18- Festinhas noturnas:
Promiscuous (Nelly Furtado)

19- Formatura:
Ai, ai, ai (Vanessa da Mata)

20- Pré-Vestibular:
O que será, que será, à flor da pele (Chico Buarque)

21- Fim de namoro:
Adeus Você (Los Hermanos)

22- Dor de cotovelo:
Same Mistake (James Blunt)

23- Faculdade:
Rise Up (Bob Sinclair)

24- Labutando:
Juventude Transviada (Cássia Eller)

25- Pegando a estrada:
Suddenly I See (KT Tunstall)

26- Subindo ao altar:
Todo Azul do Mar (Roupa Nova)

27- Lua-de-mel:
Último Romance (Los Hermanos)

28- Nascimento do filho:
Fico Assim Sem Você (Adriana Calcanhotto)

39- Família reunida na sala de estar:
Aquarela (Toquinho)

30- Bodas:
Andanças (Beth Carvalho)

31- Cabelos brancos:
Vida Boa (Victor e Leo)

32- Num outro lugar:
Tears In Haven (Eric Clapton)

33- Créditos finais:
La Valse d’Amélie (Yann Tiersen)

Despedida

Foi numa dessas festas noturnas: música alta, agitação, vai-e-vem de pessoas pelo salão abafado. Pela primeira vez eu não me encontrava em meu juízo perfeito.
De longe, avistei aquele que um dia fui capaz de jurar amor eterno.
Como já era esperado, alguém o acompanhava. Alguém que eu já imaginava. Alguém que um dia ele duvidou que faria parte de sua vida.
Subitamente, consegui percebê-lo cada vez mais próximo a mim. Me olhava um olhar tão penetrante que eu, se não fosse por pouco, me renderia completamente.
Ele veio correndo ao meu encontro, mas já era tarde demais para que pudesse concluir o seu objetivo.
Eu havia sumido na multidão.

(uma história escutada dias atrás)

domingo, 7 de setembro de 2008

Na sala da frente



Um banquinho,
meu piano afinado,
20 livros e um cd.
Talvez dois.



p.s: Era só o que eu queria por hoje.